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POLITICA / ELEIÇÕES

FIM DA ESCALA 6X1: VAI GERAR MAIS EMPREGOS OU AUMENTAR OS CUSTOS PARA AS EMPRESAS?

Circuito das Águas

REDUÇÃO DA JORNADA SEMANAL PREVÊ DOIS DIAS DE DESCANSO E MANUTENÇÃO DOS SALÁRIOS; ESPECIALISTAS DEBATEM OS EFEITOS SOBRE CONTRATAÇÕES, PRODUTIVIDADE, PREÇOS E ROTINA DOS TRABALHADORES.

O fim da escala 6×1, modelo em que o trabalhador exerce suas atividades durante seis dias para descansar um, abre uma nova etapa no debate sobre as relações de trabalho no Brasil. A proposta aprovada pelo Senado Federal prevê a adoção de dois dias de descanso remunerado por semana e a redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial.

A mudança levanta questões importantes: as empresas terão de contratar mais funcionários? Os custos de produção e os preços dos produtos poderão subir? O trabalhador precisará cumprir jornadas diárias mais longas para compensar a redução semanal? E a alteração poderá provocar desemprego em determinados setores?

As respostas dependem da forma como cada empresa organizará suas atividades, da produtividade alcançada e das regras aplicáveis a cada categoria profissional.

1. O FIM DA ESCALA 6X1 VAI GERAR MAIS EMPREGOS?

A criação de empregos é possível, mas não está garantida.

O raciocínio econômico é relativamente simples: se uma empresa precisa manter o mesmo volume de atendimento ou produção durante a semana, mas cada funcionário passa a trabalhar menos horas, poderá ser necessário contratar profissionais adicionais para cobrir os horários disponíveis.

Isso pode ocorrer, por exemplo, em supermercados, restaurantes, farmácias, hotéis, hospitais e estabelecimentos que funcionam aos fins de semana ou durante períodos prolongados.

Entretanto, há outras possibilidades. Algumas empresas poderão reorganizar escalas, reduzir períodos de ociosidade, investir em tecnologia, automatizar tarefas ou distribuir melhor o trabalho entre os funcionários existentes.

O resultado dependerá do equilíbrio entre a necessidade de mão de obra, o custo das contratações e os ganhos de produtividade.

Uma análise publicada pela Agência Brasil em abril de 2026 mostrou que os estudos sobre os efeitos econômicos da redução da jornada apresentam conclusões divergentes. Enquanto algumas projeções empresariais apontam riscos para o crescimento econômico e para os preços, análises de pesquisadores ligados à Unicamp e ao Ipea consideram possíveis efeitos positivos sobre o emprego e a atividade econômica.

Portanto, não é tecnicamente correto afirmar que o fim da escala 6×1 necessariamente criará milhões de vagas ou provocará demissões em massa. Esses resultados dependerão das condições de implementação e da resposta de cada setor.

Fonte: Agência Brasil — estudos sobre os impactos econômicos do fim da escala 6×1.

2. O TRABALHADOR TERÁ DE TRABALHAR MAIS 25 MINUTOS POR DIA?

Essa é uma das dúvidas que precisam ser esclarecidas com precisão: a proposta não estabelece uma obrigação geral de acrescentar 25 minutos à jornada diária de cada trabalhador.

A jornada semanal e a jornada diária são medidas diferentes. A maneira como as horas serão distribuídas depende da escala adotada, dos limites legais aplicáveis e das regras específicas da categoria.

Considere um exemplo de organização do horário:

  • Modelo de 44 horas semanais: uma jornada comum pode ser distribuída em oito horas de segunda a sexta-feira e quatro horas no sábado.
  • Modelo de 40 horas semanais em cinco dias: uma distribuição possível é trabalhar oito horas por dia, de segunda a sexta-feira, com dois dias de descanso.

Nesse exemplo, o trabalhador mantém oito horas nos dias úteis e deixa de trabalhar no sábado. Não precisa acrescentar 25 minutos diariamente para completar as 40 horas semanais.

Existe, porém, uma diferença matemática importante: dividir 44 horas igualmente por seis dias resulta em uma média de 7 horas e 20 minutos por dia. Dividir 40 horas por cinco dias resulta em oito horas por dia. A diferença entre essas médias é de 40 minutos, mas isso não significa que a lei obrigará cada trabalhador a aumentar sua jornada diária em 40 minutos. A comparação depende de como as horas são efetivamente distribuídas.

Também é necessário distinguir jornada de trabalho de intervalo para refeição e descanso. O intervalo não deve ser automaticamente somado às horas efetivamente trabalhadas como se fosse tempo de serviço.

Na fase de transição, a jornada semanal prevista cai primeiro para 42 horas e, posteriormente, para 40 horas. A distribuição concreta dessas horas deverá respeitar as regras aplicáveis, os limites diários e os instrumentos coletivos pertinentes.

Fonte: Senado Federal — regras da PEC 221/2019.

3. AS EMPRESAS TERÃO CUSTOS MAIORES?

Em determinados setores, sim, os custos podem aumentar.

Imagine um estabelecimento que precise funcionar durante 12 horas por dia, sete dias por semana. A empresa precisa manter trabalhadores suficientes para atender os clientes durante todo esse período, respeitando as jornadas e os descansos legais.

Se a redução das horas individuais exigir mais profissionais para cobrir os mesmos turnos, a folha de pagamento poderá crescer. Também podem aumentar despesas com treinamento, benefícios, uniformes, equipamentos e gestão de pessoal.

O impacto, contudo, não será idêntico para todas as empresas.

Uma atividade que já trabalha com jornadas de 40 horas semanais ou menos poderá ter necessidade menor de adaptação. Em outras empresas, a reorganização dos horários e a melhoria dos processos poderão compensar parte do custo adicional.

O desafio será maior para negócios que precisam manter atendimento contínuo, têm margens de lucro reduzidas ou enfrentam dificuldades para encontrar profissionais qualificados.

4. OS PREÇOS DOS PRODUTOS E SERVIÇOS PODERÃO SUBIR?

Existe essa possibilidade, mas não é uma consequência automática.

Quando o custo de produção aumenta, uma empresa pode tentar repassar parte da despesa ao consumidor. Também pode absorver o custo com uma margem de lucro menor, melhorar sua produtividade, rever processos ou combinar diferentes medidas.

O repasse aos preços dependerá da concorrência, da demanda, da estrutura de custos e da capacidade de adaptação de cada atividade.

Por isso, afirmar que o fim da escala 6×1 necessariamente provocará uma alta generalizada da inflação seria precipitado. Da mesma forma, descartar qualquer impacto sobre os preços não seria tecnicamente adequado.

O acompanhamento dos custos, dos preços e do nível de emprego será essencial durante a implantação da nova jornada.

5. OS TRABALHADORES PODERÃO SOFRER MAIS COM A MUDANÇA?

O objetivo da redução da jornada é ampliar o tempo de descanso e a convivência familiar. Entretanto, os efeitos concretos dependerão de como as empresas reorganizarão o trabalho.

Entre os possíveis benefícios estão mais tempo para a família, estudos, lazer e recuperação física e mental. Uma rotina com descanso adequado também pode contribuir para reduzir o cansaço acumulado e melhorar a concentração.

Por outro lado, se uma empresa tentar compensar a redução semanal por meio de metas excessivas, intensificação do ritmo ou distribuição inadequada das tarefas, os trabalhadores poderão enfrentar maior pressão durante o expediente.

A redução da jornada, por si só, não garante melhores condições em todos os ambientes de trabalho. Será necessário observar o cumprimento dos intervalos, o respeito aos limites de jornada, a organização das equipes e a prevenção de sobrecarga.

Também será importante verificar se as empresas manterão o quadro de funcionários necessário para atender à demanda, especialmente em períodos de maior movimento.

6. A PRODUTIVIDADE SERÁ DECISIVA

A produtividade representa a quantidade de bens ou serviços produzidos em determinado período, considerando os recursos utilizados.

Se uma empresa conseguir manter sua produção com menos horas de trabalho, a redução da jornada poderá ser absorvida com menor impacto financeiro. Isso pode ocorrer por meio de planejamento, treinamento, tecnologia, redução de desperdícios e organização mais eficiente das tarefas.

Entretanto, não existe uma solução única para todos os setores. Uma indústria automatizada, um restaurante, um supermercado e um hospital apresentam necessidades operacionais diferentes.

A análise publicada em setembro de 2026 na revista Revista Brasileira de Economia Social e do Trabalho, vinculada à Unicamp, examinou estudos sobre redução da jornada, produtividade e bem-estar. O trabalho identificou resultados favoráveis em algumas experiências internacionais, mas a aplicação dessas conclusões ao Brasil exige considerar as diferenças entre atividades, empresas e condições econômicas.

Fonte: Unicamp — estudo sobre viabilidade da redução da jornada no Brasil.

7. QUANDO A NOVA REGRA COMEÇA A VALER?

O Senado aprovou a PEC 221/2019 em dois turnos no dia 14 de outubro de 2026. O texto prevê a transição em duas etapas: primeiro, a jornada máxima semanal será reduzida para 42 horas e será adotada a escala com dois dias de descanso; depois, 12 meses mais tarde, o limite chegará a 40 horas semanais.

A contagem dos prazos depende da promulgação e da publicação da emenda constitucional. A aprovação no Senado, isoladamente, não significa que todas as novas regras tenham começado a valer imediatamente.

As empresas e os trabalhadores deverão acompanhar os atos oficiais e as orientações aplicáveis às respectivas categorias.

Fonte: Agência Brasil — quando entra em vigor o fim da escala 6×1.

CONCLUSÃO: O RESULTADO DEPENDERÁ DA IMPLEMENTAÇÃO

O fim da escala 6×1 representa uma alteração relevante na organização do trabalho brasileiro. A proposta busca garantir dois dias de descanso remunerado por semana e reduzir a jornada máxima sem diminuir os salários.

A medida poderá favorecer a qualidade de vida e, em determinadas atividades, estimular novas contratações. Também poderá elevar custos para empresas que precisem ampliar suas equipes ou reorganizar turnos. Os efeitos sobre emprego, preços e produtividade, porém, não podem ser determinados antecipadamente de forma uniforme para toda a economia.

A questão central será como conciliar o direito ao descanso, a preservação da renda, a continuidade dos serviços e a capacidade de adaptação das empresas.

Os próximos meses serão importantes para acompanhar a regulamentação, a aplicação das novas regras e os dados concretos sobre contratações, demissões, preços e produtividade.

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Roberto Torrecilhas

Roberto Torrecilhas

Jornalista com 43 anos de experiência, diretor do Grupo Circuito Paulista de Comunicação. Também atua como apresentador, radialista, escritor e blogueiro, com uma trajetória dedicada à informação e à valorização do jornalismo regional. Cristão, casado e pai.